Carros autônomos avançam no mundo, mas o caos das ruas brasileiras é um obstáculo extra para a IA
Sacolas voando, buracos, enchentes e imprevisibilidade tornam o Brasil um ambiente particularmente hostil para os sistemas de direção autônoma.
Toque pra navegar · resumo gerado dos dados da matéria
Uma sacola de supermercado arrastada pelo vento pode parecer irrelevante para qualquer motorista, mas é exatamente o tipo de situação que pode confundir um carro autônomo a ponto de provocar uma freada brusca — como se uma criança estivesse atravessando a pista. Segundo o Jornal do Carro, do Estadão, esse exemplo ilustra por que os veículos sem motorista ainda não circulam de forma comercial no Brasil. O fenômeno tem até nome técnico: frenagem fantasma, quando o sistema reage de forma exagerada a estímulos ambíguos e provoca colisões traseiras. Para Fernando Santos Osório, coordenador do Centro de Robótica da USP ouvido pelo Jornal do Carro, o caos que é exceção em vias europeias ou americanas é regra em boa parte das estradas e ruas brasileiras.
O Jornal do Carro aponta que, no cenário global, a automação já deu passos concretos: a Waymo opera cerca de 3 mil robotáxis e realiza 500 mil viagens pagas por semana em dez cidades dos Estados Unidos, enquanto a chinesa Apollo Go acumula mais de 20 milhões de corridas e 190 milhões de quilômetros rodados de forma totalmente autônoma. Ainda assim, o mesmo Osório ressalta ao veículo que nenhum carro no mundo atingiu o nível 5 de autonomia — o máximo da escala da SAE —, com os melhores sistemas operando entre os níveis 3 e 4, sempre em áreas mapeadas com precisão e sob supervisão remota.
Mesmo nessas condições controladas, os tropeços não faltam. O Jornal do Carro relata que, em março deste ano, mais de cem robotáxis da Apollo Go travaram simultaneamente nas ruas de Wuhan, paralisando o trânsito e levando Pequim a suspender novas licenças para autônomos no país. Já a Waymo acumulou episódios como carros que passaram a buzinar uns para os outros num estacionamento de São Francisco, um veículo que girou em círculos enquanto o passageiro aguardava socorro e, em San Antonio, um carro que entrou em rua alagada e foi levado pela correnteza — obrigando a empresa a recolher quase 3.800 veículos para atualizar o software de detecção de enchentes, situação que guarda paralelos evidentes com problemas urbanos recorrentes no Brasil.
O Jornal do Carro lembra ainda que o país tem um pioneirismo pouco conhecido nessa história: em outubro de 2013, o CaRINA — Carro Robótico Inteligente para Navegação Autônoma —, desenvolvido no laboratório de Osório e do professor Denis Wolf na USP de São Carlos, foi o primeiro veículo autônomo a rodar em via pública na América Latina. Décadas depois, o avanço tecnológico global ainda esbarra nas particularidades locais, e o Brasil segue sendo um dos ambientes mais desafiadores para ensinar máquinas a dirigir.
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